Notícias do front: como foi o “Fórum Além da Guerra às Drogas”

Este mês de maio tem sido um mês incrível para o debate sobre a regulamentação da maconha. Um mês tão rico que começou ainda em abril, no dia 30, com a realização na Unicamp do fórum “Além da Guerra às Drogas: o desafio de novas políticas para o uso de substâncias psicoativas”.

Desde que lancei o Almanaque das Drogas, tenho participado de diversos eventos que debatem o tema, seja como ouvinte ou como palestrante. Este Fórum foi um dos melhores de que participei. Por quê?

Poderia dizer que foi por causa da casa cheia. Mais de mil pessoas inscritas. Era tanta gente que muitas assistiram de um auditório ao lado, via telões. Sensacional ver que o tema atrai cada vez mais gente.

Poderia dizer que foi bom por causa da incrível estrutura e organização do evento. As instalações da Unicamp são impecáveis, e a turma da organização deu um show. Tudo funcionou bem nos mínimos detalhes, havia espaço e conforto para todos apesar do grande quórum. Os palestrantes não tiveram qualquer probleminha para mostrar seus trabalhos.

Mas o grande destaque do evento foi sua pegada essencialmente multidisciplinar. Falar de drogas é falar de um tema complexo, impossível de ser compreendido dentro de uma única área de conhecimento. Não existe outra forma de refletir sobre o assunto, senão agregando pontos de vista e experiências de diversas áreas. E o Fórum matou a pau nesse quesito, apesar da síntese necessária com apenas um dia de evento.

Eu, por exemplo, sou jornalista, e na minha mesa redonda fui acompanhado por especialistas da área do direito penal, da perícia criminal e da antropologia. Eclético. Antes, assistimos à apresentação de uma terapeuta ocupacional. À tarde, em outra sequência de palestras e debate, ouvimos um médico, um historiador, um psicólogo profissional em redução de danos e outra pessoa do direito. Todos com grande experiência na área e muita coisa para mostrar e contar.

Vi pessoas comentarem na saída: “Nossa, precisamos refletir”. Foi um debate tão rico, pela troca de experiências entre as áreas, que as pessoas se davam conta de que não dá para debater o assunto fechadinho no seu quadrado. É preciso sair do seu departamento, ouvir gente diferente, entender e analisar o fenômeno do uso e do comércio de drogas na sua totalidade.

Médicos e psicólogos não podem escolher uma política sem saber o que acontece nas blitzes da polícia e nos fóruns. Os juízes não podem decidir sem entender os aspectos sociais e antropológicos do tema. Químicos e farmacêuticos não podem banir esta ou aquela substância sem conhecer sua história na humanidade e as consequências da proibição.

O grande momento do evento, no entanto, foi o debate final. O psiquiatra Luís Fernando Tófoli, idealizador e um dos organizadores do Fórum, convidou duas pessoas da área de saúde para debater sobre três perguntas: Maconha faz bem? Faz mal? Deve ser legalizada?

Supostamente, as duas pessoas representavam lados opostos quanto à última pergunta. O psiquiatra Arthur Guerra de Andrade era, em tese, o “proibicionista”. O neurocientista Sidarta Ribeiro, o “antiproibicionista”. Normalmente, esse tipo de conversa descamba para a irracionalidade de lado a lado, quando não para o bate-boca, com os dois lados tentando sair vencedores a qualquer custo. Que se dane a ética e a ciência. O que se viu no Fórum não foi nada disso.

Em sua apresentação, o professor de psiquiatria da USP e especialista em dependência química dr. Guerra mostrou-se da paz. Reconheceu e apresentou efeitos medicinais da maconha – geralmente quem defende a proibição das drogas tenta omitir esse fato. Mais além, indicou a própria “onda” da droga, sua capacidade de afetar o humor, como um de seus benefícios. E foi absolutamente correto e sem exageros ao descrever os malefícios, sem cravar associações simples como causas comprovada.

Já Ribeiro, que é PhD em neurociência e diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, falou talvez até mais que Arthur Guerra sobre os riscos da maconha para determinados grupos de usuários. Apesar de sua fala ter focado na importância histórica da relação entre homem e cannabis. Ele fez uma brilhante metáfora dessa relação com o fato de termos desenvolvemos diferentes raças de cães para nos ajudar em diferentes coisas, e concluiu com a provocação: devemos legalizar os cachorros?

Em sua fala, dr. Guerra cometeu um pequeno deslize, ao fazer uma piada sobre a memória de pacientes dependentes de maconha. Metade da plateia achou graça, a outra metade indignou-se. Uma jovem reclamou, e ele pediu desculpas três vezes até o encerramento do debate, enfaticamente.

Resumindo, foram dois grandes cavalheiros num diálogo maduro e elegante. O debate não teve um vencedor, mas vários: todos saíram ganhando, com o tratamento sério e honesto que o tema recebeu e sempre exige.

Precisamos de muitos Fóruns como esse. Só assim vamos entender com clareza o fracasso da guerra às drogas e os prejuízos que ela nos traz. Só assim conseguiremos elaborar políticas alternativas, que lidem com o uso e o comércio de substâncias psicoativas de modo mais pragmático e, principalmente, humano. Precisamos de muito esclarecimento e reflexão para sair da idade das trevas em que nos encontramos quando falamos desse assunto. Enquanto uma “epidemia” de debates racionais não chega, espero ansiosamente pela próxima edição do evento.

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