Maconha reduz crises de enxaqueca, revela estudo

Maconha para enxaqueca? Funciona. Estudo feito no Colorado e publicado este mês na revista científica Pharmacotherapy acompanhou 121 pacientes com esse tipo de dor de cabeça forte durante 4 anos e 9 meses.
Cerca de 85% dos pacientes – 103 pessoas, precisamente – tiveram uma redução significativa na frequência dos episódios de enxaqueca. Apenas 2,5% (3 pacientes) relataram uma piora no quadro. A média de crises caiu de 10.4 para 4.6 por mês na amostra estudada.
Os pacientes geralmente usavam maconha fumada para tratar dores agudas, e a ingestão de alimentos com maconha era usada preventivamente.
Apesar do resultado positivo, os autores lembram que são necessários mais estudos para confirmar a eficácia da droga no tratamento da enxaqueca. Estudos mais detalhados, com variação de doses e grupo de controle, tomando placebo – “pílula de farinha”, usada para evitar o “efeito psicológico”.
No entanto, esse estudo não deve ser feito – pelo menos não nos EUA. O motivo é o mesmo que nos ajuda a entender porque tantos médicos podem dizer que não existem evidências suficientes sobre a eficácia da maconha para uma série de enfermidades: como a maconha ainda é uma droga proibida pela lei federal americana, este tipo de estudo é proibido naquele país – o que mais investe em pesquisas biomédicas do mundo.
É aquela coisa: a maconha medicinal é proibida porque não existem evidências suficientes, e não existem evidências suficientes porque ela é proibida. Quando este ciclo perverso vai ser quebrado?
Leia o resumo do estudo sobre maconha e enxaqueca aqui, nessa página da Pharmacotherapy. Ou leia aqui o artigo na íntegra.
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Procuradora vai recorrer pelo cultivo de maconha medicinal para uso próprio

Procuradora autora da ação que garantiu acesso provisório à importação produtos com THC, Luciana Loureiro esclareceu questão sobre maconha in natura, explicou próximos passos da ação e disse que vai recorrer para autorizar cultivo pessoal para fins medicinais, defendendo o desenvolvimento de indústria nacional.

Segunda-feira, dia 9 de novembro, o juiz federal Marcelo Rebello concedeu uma liminar que obriga a Anvisa a retirar a o THC da lista de substâncias proscritas e a permitir a pesquisa, a prescrição e a importação de produtos com THC e maconha in natura. As medidas têm o prazo de dez dias para entrar em vigor, a contar da notificação da agência. É certamente o maior avanço na regulamentação do acesso à maconha medicinal, desde que o debate sobre o tema ganhou o país em março de 2014.

A decisão responde as demandas de uma ação do Ministério Público Federal, movida pelos procuradores da República Luciana Loureiro Oliveira, Anselmo Henrique Cordeiro Lopes e Ana Carolina Alves Roman. Conversei sobre o resultado com Luciana Loureiro, titular do ofício de direitos do cidadão, e a procuradora considerou o resultado “uma grande vitória”, embora acrescente que “o juiz poderia ter ido mais além”. E, por isso, ela vai recorrer.

A decisão se refere apenas aos pedidos de tutela antecipada. E aqui traduzo o juridiquês: numa ação judicial, o procurador pode fazer pedidos gerais e assinalar alguns que considera urgentes e precisam ser respondidos antes de a sentença final sair. Isso é comum porque os processos demoram anos para serem concluídos e se o tema afeta, por exemplo, a saúde ou a vida de alguém, o juiz pode conceder alguns pedidos enquanto não tira sua conclusão definitiva sobre o caso. Foi o que aconteceu: milhares de pessoas no país poderiam controlar desde já suas dores crônicas se já tivessem acesso ao THC. Como a portaria da Anvisa não garantia esse direito, o judiciário tratou de fazê-lo.

No entanto, a Anvisa também deve recorrer para derrubar a liminar. E isso deve acelerar o julgamento dos recursos. “A Administração foi vencida e não vai querer ficar com esse prejuízo por muito tempo. Então existe uma pressão para que o recurso seja avaliado logo”, explicou Luciana, acrescentando que isso pode ser bom ou ruim. Se o recurso dela vencer, os direitos serão ampliados para permitir a importação de sementes para cultivo pessoal com fins medicinais, por exemplo. Se a Anvisa vencer, a situação volta a ser como antes. De qualquer modo, o julgamento não deve sair antes de dezembro – provavelmente só no ano que vem – e logo os direitos concedidos pelo juiz de primeira instância estarão disponíveis por pelo menos alguns meses.

Nessa conversa, a procuradora também esclareceu uma dúvida que circulou na internet sobre o que poderia ser importado provisoriamente: apenas extratos ou a planta também? “Ela entrou num pote? Então podemos considerar produto”, disse Luciana. Isso significa que as flores fornecidas pelo Ministério da Saúde da Holanda, produzidos pela Bedrocan, poderão ser importados sob prescrição e notificação à Anvisa.

Ela ainda salientou que a lentidão para se garantir um acesso mais amplo à maconha medicinal “não se justifica do ponto de vista técnico” e “existe possivelmente uma diretriz política de não se tomar essa decisão”. Para a procuradora, a importação é uma solução apenas provisória: “Futuramente quem sabe possamos incorporar ao SUS tudo que pode ser produzido a partir da maconha. Mas isso a gente só consegue com o desenvolvimento de uma indústria no Brasil.”

Leia a seguir a entrevista completa:

Em primeiro lugar, porque você e seus colegas decidiram ajuizar uma ação pela maconha medicinal?

Sou titular de um oficio de saúde e estávamos recebendo notícias de casos de pessoas que iam a Justiça pedir individualmente autorização para importação desse produto que continha CBD e um pouco de THC. Essas pessoas tinham dificuldade primeiro em relação à Anvisa e depois em relação a obter os produtos, porque a importação é um processo difícil. Muitos desistiam e outros se arriscavam a fazer a importação sem autorização, passando com os produtos na bagagem. Uma situação de desespero e falta de alternativas. O caso da Anny (Fischer, retratado no filme Ilegal), chamou muita atenção e sensibilizou bastante por ser uma criança. Fomos então atrás de outros casos e vimos que esse não era um caso exclusivo. Não é um problema pequeno, atinge muita gente. Pensamos numa medida que ajudasse toda as pessoas indistintamente. Porque muita gente precisava e muitas relatavam efeitos positivos. Esses foram os dois principais fundamentos da nossa ação.

O que você achou da decisão?

Não deixo de achar positiva, porque foi um avanço. Até então tínhamos apenas uma sinalização da Anvisa para produtos com CBD, sem nenhuma facilitação do processo de importação, sempre caso a caso, muito burocrático. Então, o fato de ter reclassificado o THC já é um grande avanço, porque existe grande resistência da Anvisa de retirá-lo da lista de substâncias proibidas. Foi uma grande vitória. No entanto, a gente considera que o juiz poderia ter ido mais além, permitindo o uso in natura da planta. Por isso ainda vamos tentar recurso.

bedrocan-pot-pic-largeMas do modo que está escrita, a decisão autoriza a importação de “produtos que contenham THC e CBD”. E na Holanda a maconha in natura é curada, aparada, testada e embalada para venda como um produto medicinal qualquer nas farmácias, com selo do Ministério da Saúde. Essas flores, pelo menos, não poderiam ser usadas pelos pacientes brasileiros, segundo a decisão?

Ela entrou num pote? Então podemos considerar produto. Tendo sofrido processo de beneficiamento, e nesse caso é claro que ela foi processada, então é um produto. Não foi alguém que plantou a casa e mandou pelo correio. Não há dúvidas de que isso é um produto.

E quais os próximos passos da ação?

Agora o processe entra numa fase de produção de provas. Além das provas documentais, podemos entrar numa fase de ouvir testemunhas, especialistas etc. Depois, entramos numa fase de finalização dos argumentos e de sentença. Temos muitas questões que devem ser objeto de esclarecimento mais profundo. Por isso que vamos recorrer. Vale a pena informar o tribunal de novo sobre o que queremos.

Quais demandas de tutela antecipada da ação não foram contempladas nessa liminar e serão alvo do recurso?

O juiz acatou os pedidos de reclassificação, de inclusão do adendo e de importação provisória, mas nesse último item temos que esclarecer se vai ser permitida a entrega no endereço do paciente e se a conferencia dos documentos será posterior ao pedido. Essas coisas não ficaram claras e facilitariam muito a importação.

O recurso será sobre três pedidos principais. Leio aqui para você:

1 – Importação provisória das sementes para plantio para uso próprio, com fins medicinais e prescrição médica.

2 – A expedição de ofício para iniciar estudos técnicos para avaliar segurança e eficácia dos produtos já existentes no mercado internacional. Isso é importantíssimo.

3 – Iniciar estudos para avaliar o enquadramento da cannabis in natura como planta medicinal na política nacional de medicamentos fitoterápicos. Aqui seria a planta mesmo.

A Anvisa ainda pode recorrer. Se ela o fizer, a decisão pode ser adiada ou mesmo anulada em outra instância?

A Anvisa certamente vai recorrer. E nós vamos recorrer para ter nossos pedidos no todo. Não podemos perder a oportunidade de fazer o Tribunal (da Justiça Federal da 1a Região) enxergar que a decisão foi muito interessante, mas que gostaríamos de ter mais, porque isso é uma tutela antecipada e imaginamos que ela ainda vai perdurar por muito tempo. A sentença final pode ser daqui a 2 ou 5 anos. Teremos perdido muito tempo, sem um êxito melhor nesses pedidos antecipatórios.

Você estimaria algum prazo para o recurso da liminar ser julgado?

É difícil responder. Se a gente não tivesse obtido nenhum êxito nessa liminar, o recurso para a instância superior teria prioridade zero. Como obtivemos uma decisão favorável e de certo modo com impacto para a Administração, a expectativa é que eles devem julgar relativamente rápido. Não por conta da celeridade normal, mas porque nesse caso a Administração foi vencida e não vai querer ficar com esse prejuízo por muito tempo. Existe uma pressão para que o recurso seja avaliado logo. O que pode ser bom ou ruim. Podemos ter nossos pedidos acatados. Mas esperamos pelo menos que ele mantenha a decisão. Mas as coisas também podem ser perdidas no recurso da Anvisa.

A Anvisa não deve ter tempo de ter seu recurso avaliado antes dos dez dias. Nesse caso, ela teria que cumprir e, se for o caso, voltar atrás?

Provavelmente não vai dar tempo, então esperamos que realmente saia essa nova edição da portaria. Ficamos na expectativa de quando tempo ela vai ficar vigente. Esperamos que ele mantenha a decisão.

O juiz determinou que a Anvisa autorize o uso medicinal e a pesquisa, mas não o cultivo. A falta de cultivos no brasil não dificulta a implementação do uso medicinal e das pesquisas?

Sem dúvida, isso tudo está encadeado. As coisas são dependentes umas das outras. A gente não quer a plantação lá fora, quer que se crie aqui dentro uma cultura de responsabilidade no estudo, na produção e no uso das possibilidades terapêuticas da planta. A gente quer que isso seja criado e desenvolvido aqui. Falta olhar isso com mais modernidade e menos preconceito. Permitir apenas o que está pronto lá fora não resolve o problema. A importação é algo que nem todos têm acesso. A gente quer que isso seja construído aqui dentro, para que futuramente quem sabe possamos incorporar ao SUS tudo que pode ser produzido a partir da maconha. Mas isso a gente só consegue com o desenvolvimento de uma indústria no Brasil.

Tem sido muito comum que o poder Judiciário faça o país avançar no que diz respeito à maconha medicinal. Acha que o Judiciário está mais atento e ágil do que outros poderes e até mesmo do que a Anvisa em relação a essa matéria?

O Judiciário é provocado, então é obrigado a dar uma resposta constitucional. E como esses casos tão emblemáticos e geram tanta comoção, os juízes são sensibilizados. A Administração, no caso da Anvisa, anda mais devagar porque uma decisão como essa tem que mover uma serie de órgãos e eles levam tempo para isso. Tem o peso da máquina administrativa.

Já existe fundamento cientifico suficiente para decidir isso. Essa morosidade não se justifica mais do ponto de vista técnico. Existe possivelmente uma diretriz política de não se tomar essa decisão [de regular o acesso à cannabis medicinal]. Quem tem poder de decidir provavelmente não quer assumir o ônus de uma decisão que pode parecer arriscada do ponto de vista político.

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Katiele Fischer recebe hoje o prêmio Trip Transformadores

FamiliaFischer

Ontem reencontrei a família Fischer aqui em casa. Eles estão em São Paulo porque a Katiele veio receber o prêmio Trip Transformadores, hoje à noite. Justamente hoje, dia 11/11/15, dois anos exatos depois de a Anny tomar sua primeira dose de canabidiol.

O presente da família veio antecipado, ontem, com a notícia de uma importante decisão judicial em favor da maconha medicinal. O juiz federal reconheceu, no trecho da sentença que copiei abaixo, a importância de o casal ter tornado público o caso da sua pequena Anny, no Ilegal e na Super – e a partir daí em todo o Brasil.

Essa família teve coragem para enfrentar todo o preconceito que existe contra a maconha para lutar pela saúde da filha, quando mal se falava em maconha medicinal no país. Merecem cada um desses gestos de reconhecimento.

Acho que essa decisão judicial é um baita presente para perseverar na luta por uma ampla regulamentação para a maconha medicinal. E por isso mesmo é um presente para muita gente. É para todas as pessoas que há meses ou anos – e até mesmo há décadas – estão na luta contra essa proibição irracional de algumas drogas. E um presente ainda mais importante para todos que precisam de maconha medicinal.

Essa semana mais um passo foi dado. Muitos virão pela frente.

“Certo é que, justamente em razão da omissão dos outros poderes, aparentemente resultante da postura proibicionista do Estado brasileiro, é que o Poder Judiciário tem precisado intervir a fim de garantir, sobretudo, a dignidade da pessoa humana e o direito à saúde, sendo exemplo de tal intervenção a decisão liminar concedida favoravelmente à autora Anny Fischer.”

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BOMBA! Justiça brasileira legaliza maconha para uso medicinal

Decisão de ontem da Justiça Federal do DF deu prazo de dez dias para a Agência de Vigilância Sanitária,  que regula os medicamentos no país, retirar o THC da lista negra das substâncias proibidas. Isso já foi feito com o Canabidiol (CBD), em janeiro de 2015, por iniciativa da própria Anvisa. Mas o THC, princípio ativo responsável pelo barato da maconha, continua banido.

A outra novidade é que, segundo a sentença, estão autorizadas a prescrição e a importação de Cannabis sativa L. “Agora, um médico pode prescrever a planta in natura“, diz Emílio Figueiredo, consultor jurídico do Growroom, associação que defende o cultivo para uso pessoal.

A decisão é uma tutela antecipada: ou seja, o juiz ainda não proferiu sua decisão final sobre todos os pontos da ação. Mas antecipou a decisão sobre pontos que considera urgentes. Que são:

  • Reclassificar o THC. “Transferir, em dez dias, o THC da lista F2 do anexo da lei de drogas, que contém as substâncias psicoativas banidas, para uma lista de substâncias sujeitas à notificação de receita” – ou seja, ele passa a ser autorizado mediante prescrição médica.
  • Mudar, em dez dias, a portaria 344/98 para “permitir, por ora, a importação, exclusivamente para fins medicinais, de medicamentos e produtos que possuam como princípios ativos os componentes THC (TETRAHIDROCANNABINOL) e CDB (CANNABIDIOL), mediante apresentação de prescrição médica e assinatura de termo de esclarecimento e responsabilidade pelo paciente”.
  • Permitir a pesquisa e a prescrição “da Cannabis sativa L. e de quaisquer outras espécies ou variedades de cannabis, bem como dos produtos obtidos a partir destas plantas, desde que haja prévia notificação à ANVISA e ao Ministério da Saúde”.

A ação do MPF também pediu a autorização de importação de sementes e do cultivo pessoal para uso medicinal. Essas demandas estão entre as que ainda não foram julgadas pelo juiz Marcelo Rebello, da 16a Vara de Justiça Federal do DF.

Consultada, a Anvisa disse por meio de sua assessoria de imprensa que ainda não sabe se vai recorrer. “Não sabemos ainda. A Diretoria vai avaliar os efeitos da decisão e possíveis ações da Anvisa. Não temos uma resposta, até porque na verdade ainda não fomos sequer notificados, embora tenhamos acesso à decisão na internet.”

Em janeiro, quando a Anvisa reclassificou o CBD, o então presidente da Anvisa Jaime Oliveira disse a este blog que “Sem dúvida nenhuma, a situação do THC tem que ser explorada e analisada“.

Leia a entrevista com a procuradora autora da ação.

Leia a decisão na íntegra. Decisão liminar ACP cannabis.

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Uma semana histórica para as mulheres (até para as invisíveis)

Hoje, quem ocupa este espaço é a Gabriela Cunha Ferraz, em adesão à campanha #AgoraÉqueSãoElas. Uma pena precisarmos de uma ação como essa para as mulheres terem mais igualdade e  voz na sociedade, especialmente na mídia. Mas se é isso que está ao nosso alcance, vamos aproveitar a oportunidade.


Gabriela FerrazGabriela Cunha Ferraz
é advogada, militante,
mestra em Direitos Humanos
pela Universidade de Estrasburgo
e Coordenadora nacional do
Comitê Latino Americano para
Defesa dos Direitos da Mulher/Brasil.

Nesta semana, o Departamento Penitenciário Nacional, do Ministério da Justiça, divulgou os dados do 1° Levantamento de Informações Penitenciárias (INFOPEN). Pela primeira vez, temos dados das prisões brasileiras com um recorte de gênero. Exatamente nesta semana da “primavera feminista”, quando alguns espaços tradicionalmente masculinos estão sendo ocupados por mulheres, quando decidimos ir para as ruas pedindo mudanças políticas para o país e mais garantia de direitos. Com os dados do Infopen conseguimos, pela primeira vez, ter um olhar específico sobre a questão do encarceramento feminino. A sistematização desse documento foi, durante anos, demandada por feministas e especialistas do tema que defendem que a mulher presa ocupa o último grau da invisibilidade social que nos afeta. Agora, ele é uma realidade.

E, essa realidade é bruta e desumana, como, aliás, a própria lógica prisional. Hoje, já são 700 mil mulheres encarceradas no mundo. Esse número aumenta significativamente se computarmos os filhos e os familiares que dependem diretamente dessa mulher. Acertamos ao afirmar que, quando prendemos uma mulher, tiramos a liberdade de toda sua família. No Brasil, enquanto o encarceramento de homens cresceu 220% entre 2000 e 2014, o de mulheres aumentou espantosos 567%. Nossa população carcerária feminina ocupa o 5º lugar no ranking internacional, perdendo, apenas para os Estados Unidos, a Rússia, a China e a Tailândia.

O levantamento mostra que apesar desse crescimento exponencial, as unidades de privação de liberdade não estão prontas para receber essas mulheres. A legislação brasileira (Lei de Execuções Penais) determina que devem existir unidades prisionais femininas, independentes das unidades que abrigam homens. Na prática, porém, temos que apenas 7% das penitenciárias são exclusivamente femininas, sendo outras 75% reservadas aos homens e 17% de natureza mista.

Dizer que uma penitenciária é mista é dizer que ela foi concebida e construída para abrigar homens e que, diante da necessidade, foi feito um “puxadinho” para abrigar as mulheres. Essa afirmação se comprova quando percebemos que em 90% das unidades ditas mistas, não existe uma cela ou dormitório adequado para gestantes, ao passo que em 34% das unidades femininas, esses espaços já existem.

A percepção arquitetônica é fundamental quando falamos de gênero e presídio. Alguns Estados, como São Paulo, adaptaram antigos centros manicomiais para receber mulheres presas. Essa política trouxe consigo uma carga de estereótipos infindáveis, já que as mulheres presas são vistas como loucas, histéricas, rebeldes ou pecadoras que romperam com o papel que tradicionalmente lhe foi atribuído. A visão comum indica que a mulher que frustra a expectativa social da boa mãe, esposa e filha dócil, merece ou o cárcere ou o manicômio.

O perfil da mulher presa se aproxima, muito, do perfil geral da população carcerária: Jovens entre 18 e 29 anos (50%), negras (68%), com ensino fundamental incompleto (50%) e solteiras (57%). Um dado, porém, não foi levantado e me parece ser de fundamental importância para traçar o perfil dessa mulher: Quantas dessas mulheres são mães? Entre os homens, 41% não tem filhos, mas esse dado me parece irreal dentro do universo feminino.

O grande diferencial deste levantamento está, no entanto, na análise do crime cometido pela pessoa presa. Entre homens e mulheres, o crime que mais encarcera no país ainda é o tráfico de entorpecentes. Entre os homens, 27% são presos por esta prática, enquanto que entre as mulheres, esse percentual sobe para 68%. E, a pergunta que fica é: Porque?

Salta aos olhos de qualquer pessoa que já manteve contato com o universo de mulheres presas que, entre essas 25 mil detentas, não encontramos nenhuma que esteja diretamente ligada ao alto comando do tráfico de drogas ou que gerencie grandes quantidades de entorpecentes. E é exatamente por isso que elas são presas. As mulheres sempre estão na ponta mais fraca da cadeia produtiva das drogas e, por isso, não recebem proteção nem do tráfico e nem da polícia. Quem ocupa posições inferiores pode ser facilmente substituído na linha de produção, sem representar uma grande perda para o sistema.

A mulher que trabalha para o tráfico, desempenha atividades de pequena importância como a embalagem e a distribuição de drogas. Essas atividades permitem, ademais, que ela possa cuidar dos seus filhos porque, em geral, foram abandonadas pelos parceiros, não conseguem emprego fixo, possuem baixa escolaridade e não podem contar com uma política de creches, já que estas são inexistentes ou insuficientes. Sem outra saída, essa mulher começa a trabalhar como “funcionária do tráfico”, sendo, na maioria das vezes, explorada.

Esses fatores acabam por agravar a pena da mulher presa. Muitos juízes (e juízas) entendem que se o crime foi praticado na frente dos filhos, a ré merece ter sua pena aumentada. Interessante é perceber que essa pergunta nunca é feita aos homens, no momento do seu julgamento. Os juízes nem sequer perguntam se o réu é pai porque esse dado não interessa ao processo criminal, fazendo parte, apenas, da esfera privada da vida daquele indivíduo. Mas, a mulher, quando mãe, não é considerada como um sujeito de direitos independente e seus atos acabam sendo agravados pelo julgamento moral de ser uma “má mãe”.

Essa semana marcou o início de um movimento que reúne mulheres e que pede para que enxerguemos seus problemas, vidas e angústias. Mas, e agora? Será que já estamos prontos para enxergar o invisível?

PS – Os dados apresentados pelo DEPEN não levam em consideração a população prisional de São Paulo, vez que o Governo do Estado não forneceu os dados necessários para a conclusão da pesquisa. Isso faz com que 40% da população prisional brasileira, concentrada neste Estado, seja sumariamente excluída dos dados apresentados. Desta forma, frisamos que apesar de fundamental, a pesquisa ainda não representa, com exatidão, o cenário nacional.

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Legalização da maconha – TESTE!

 

 

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EUA: Mais maconheiros ou Menos mentirosos?

Uma pesquisa publicada ontem diz que o “consumo de maconha” nos EUA mais que dobrou, de 4% a 10% da população adulta, em uma década – mais ou menos entre 2001 e 2012.

Na realidade, o que de fato aumentou foi o percentual de pessoas que responderam “sim” quando um sujeito pergunta, olho no olho:

“Você já fumou maconha alguma vez na vida?”

pokerfaceO entrevistado faz uma reflexão por um pentelésimo de segundo e várias coisas passam pela sua cabeça. A guerra às drogas, o amigo que foi expulso do colégio por causa de um baseado na mochila, aquele conhecido que entrou num rehab de 18 meses para não ser preso por causa da mesma coisa e até aquela trouxinha de maconha escondida da mãe no fundo da gaveta. Nessa hora ele tem um calafrio e sorri: “Não, senhor, nunca fumei maconha na minha vida. Não conheço nem o cheiro.”

Aí o cara pega um DeLorean, viaja para 2013 e o mesmo entrevistador e sua mesma poker face fazem a mesma pergunta:

“Você já fumou maconha alguma vez na vida?”

Bf1firetrailsAí passam pela cabeça do entrevistado outras coisas, como a lembrança de que o atual presidente Obama não apenas tragou, como inalou e ainda repetiu muitas vezes. E o fato de 11 estados americanos mais o D.F. terem regulado o uso medicinal da maconha entre essa e aquela entrevista. E, no final dessa fração de segundo reflexiva, nossa cobaia  ainda lembra do momento no carro ao som do Snoop Dog, aquele músico que ganha milhões com sua fama de maconheiro. O entrevistado não sabia das estatísticas de prisões (cada vez maiores) de usuários de maconha naquela década, então não sente o calafrio da entrevista de 2002 e distraidamente responde: “Sim”.

downloadComo o DeLorean – e a pesquisa – só foram até 2013 com suas 36 mil entrevistas face-to-face, o nosso entrevistado não teve notícias da ideia maluca do Mujica, do resultado das eleições no Colorado e nos outros três estados que legalizaram a erva nem da complacência da Casa Branca com essas ousadias. Tampouco ouviu dizer que o médico da CNN mudou de ideia sobre a maconha medicinal.

Então aposto que, quando atualizarem a pesquisa em 2020, o número de maconheiros vai ter dobrado de novo.

Ou, pelo menos, a proporção de maconheiros que podem falar a verdade nessas entrevistas.

* * *

O percentual de pessoas que seguem determinado comportamento e percentual de pessoas que admitem esse comportamento são coisas bem diferentes entre si, quando se trata de um comportamento tabu ou, pior, proibido e eventualmente punido com prisão.

A notícia da Reuters diz “conforme as atitudes e as leis se tornam mais tolerantes com a maconha, o consumo aumenta”. Não seria possível dizer, também, que conforme as atitudes e as leis se tornam mais tolerantes as pessoas têm menos medo de sair do armário?

Simplesmente nunca saberemos se o que aumentou mais foi o consumo ou a sinceridade.

E numa época em que a cultura e as leis estão mudando tão rapidamente sobre esse assunto, mais difícil ainda querer chegar a alguma conclusão a partir de uma pesquisa como essa.

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