Como a imprensa cria mitos sobre drogas: “maconha causa peitinho em homens?”

gynecomastiaEssa é mais uma da série “Como criar um mito sobre drogas”. A receita genérica diz:

– Pegue um estudo qualquer que diga uma bobagem qualquer sobre o assunto que lhe interessa.

– Ache um médico qualquer a fim de aparecer e faça uma pergunta qualquer.

– Na hora de escrever o artigo, ignore o que dizem as pesquisas consultadas e as ressalvas do médico e use a parte que lhe interessa.

– Publique a matéria com um título bombástico. Não importa se ele contraria todo o resto.

O exemplo do título desta matéria vem do renomado jornal britânico Independent – “Maconha pode causar peitinhos, diz médico”, referindo-se ao que a medicina chama de ginecomastia.

A nota mostra que até jornais relativamente competentes sabem seguir a receita para criar mitos. Afinal, pouco importa a verdade sobre as drogas, e sim os cliques que elas proporcionam.

A “teoria” de que maconha causa peitinhos se baseia em dois estudos, segundo a matéria. Um, de 1972, aponta uma associação (não uma relação causal). O outro, feito cinco anos depois, não encontrou sequer a tal associação.

Empate, certo? Gera, no máximo, uma suspeita. Até porque 2 estudos dos anos 1970, com um número limitado de cobaias não é nada para se comprovar cientificamente uma hipótese. Tirar qualquer conclusão a partir desse ralo material empírico seria leviano.

Aí vem um médico que, a propósito, nunca pesquisou a relação entre ginecomastia e maconha. Ele diz com todas as letras: “A associação entre maconha e ginecomastia não foi conclusivamente provada”. Claro que não. Ela sequer foi cogitada por muito mais gente do que ele mesmo, que completa: “Embora essa associação seja muito plausível”.

Ele a considera plausível porque sabe-se que a maconha produz pequenas alterações na proporção de hormônios e que isso, em casos graves, causa ginecomastia.

Ora, alterações de hormônio também causam infertilidade e queda de cabelos nos homens e voz grossa em mulheres. O uso massivo de esteroides faz isso tudo. Mesmo assim tem gente que toma grandes injeções de testosterona e não tem ginecomastia.

Ou seja, ele ignora o que dizem os poucos estudos sobre o assunto e força uma grande barra para levantar a tal hipótese. O repórter – ou seu editor – igualmente ignora “licença poética científica” e mete no título: maconha pode causar ginecomastia.

Será que pode mesmo? Eu preferiria ver mais estudos sobre o assunto. Até porque, se isso for verdade, cadê a epidemia de peitinho entre os usuários da droga ilegal mais consumida do mundo?

Algo me diz que, se isso fosse verdade, as clínicas de cirurgia plástica estariam tão ocupadas arrancando peitinho de homens quanto estão para colocar peitão em mulheres.

Mas já era. O Independent, que está mais preocupado em ter audiência do que em ser franco sobre as drogas. E lá se vai mais um mito se espalhando para criar nas pessoas um medo irreal sobre as drogas proibidas.

**

A propósito: a ginecomastia é um dos efeitos colaterais de outras drogas bem populares que você encontra na farmácia, como o antiácido Omeprazol. E até de algumas que causam dependência e que se usa para ficar “chapado”, como o Valium e o grande hit dos insones: Rivotril. Mas isso não rende cliques e seria prontamente respondido pela indústria farmacêutica. Melhor não dar um destaque sobre isso.

* * * * *

ATUALIZAÇÃO: Enquanto publicava este post, a versão letras traduzidas do mito “maconha causa peitinho” já se espalhava pelo Brasil via Globo Online. E assim vai.

 

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3 respostas para Como a imprensa cria mitos sobre drogas: “maconha causa peitinho em homens?”

  1. Pingback: A imprensa e seus mitos: “Maconha pode causar peitinhos, diz médico” | #Smoke Buddies

  2. Pépi disse:

    É claro que tem gente que toma injeçoes de testosterona e nao tem ginecomastia, porque o que causaria isso seria mais hormonios femininos do que masculinos no corpo do homem, testosterona eh hormonio masculino.

    • tarsoaraujo disse:

      Pépi, quando alguém toma testosterona em grandes quantidades, o organismo para de produzir o hormônio, achando que não precisa mais trabalhar pra isso. Quando o sujeito para de tomar o anabolizante, às vezes o corpo demora para voltar a produzi-lo normalmente (ou nem volta) e os níveis de os níveis de hormônio masculino ficam muito baixos. Podem ficar mais baixos até que os níveis de hormônio feminino – que o homem possui normalmente, mas em quantidades muito pequenas. E é essa predominância dos hormônios femininos que causa ginecomastia, um dos efeitos colaterais mais indesejados do uso de anabolizantes.

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