Cientista inglês David Nutt cria “álcool” com antídoto para ressaca

Imagine. É quarta-feira e você vai se reunir com os amigos para ver o futebol porque seu time pode ser campeão hoje mesmo. E não dá outra. Você comemora sem moderação e enche a cara sem medo de ter que dirigir de volta para casa e trabalhar no dia seguinte. Não, você não é um irresponsável. É que você bebeu uma droga que imita o álcool. Os efeitos são parecidos. A diferença é que, ao pagar a conta, você bebe um antídoto e antes de passar a primeira marcha você está sóbrio. No dia seguinte, você tem um pouco de sono e é o cara mais chato do escritório – na opinião de quem torce para outro time. Mas nada de ressaca.

Ficção? Não. É apenas uma boa ideia, que tem chances de se tornar realidade no futuro.

A nova droga foi desenvolvida pelo professor David Nutt, psicofarmacologista da University of Bristol (Reino Unido). Ex-conselheiro do governo britânico para assuntos psicoativos, ele foi demitido quando disse que a mefedrona – estimulante que imita a cocaína, mas está associada a menos riscos e dependência – não deveria ser proibida. Em 2007 e 2010 ele publicou dois estudos sobre riscos das 20 substâncias psicoativas mais usadas no mundo e tornou-se de vez uma persona non grata no governo de seu país por dizer o que todo cientista sério sabe, mas tem medo de admitir: que LSD, ecstasy e maconha fazem muito menos mal que álcool e tabaco.

Sua droga ainda é um protótipo. À moda antiga, ele chegou a testá-la em si mesmo. E não achei qualquer artigo sobre algum teste de eficácia. Mas ela já está pronta para desencadear outra polêmica. Porque os moralistas de plantão, que aceitam a (utópica) abstinência como única forma de solução para os problemas de drogas, já estão dizendo que criar uma nova droga é desperdício de recursos. “Já temos drogas suficientes para nos dar problemas”. Santa ignorância, Batman.

O álcool é droga que mais tira dias saudáveis de vida no mundo, e a segunda que mais mata  (só perde para o tabaco). Além disso, é uma das principais causas de mortes no trânsito e violência doméstica em todo o mundo, e seu consumo na gravidez é a principal causa de doença mental do mundo. Tudo segundo a OMS. De quebra, a tão famosa ressaca é uma das principais causas de faltas e acidentes de trabalho no mundo. Um estudo americano já constatou que lá, pelo menos, ela não perde para nenhum outro motivo.

Encontrar algo que satisfaça a milenar necessidade humana de ter a sensação causada pelo álcool sem os riscos que ele traz seria provavelmente a maior ação de redução de danos do uso de drogas da história. Mas não vai ser fácil.

Além de argumentos moralistas, talvez Nutt tenha dificuldades para encontrar financiamento para transformar sua ideia em realidade. Em sua coluna no diário inglês The Guardian, ele conta a novidade e diz que já procurou os fabricantes de álcool. Mas eles só teriam interesse em investir no produto quando ele já estiver no mercado, representando uma ameaça real aos seu negócio tradicional.

Exatamente como no caso da indústria de tabaco e os cigarros eletrônicos. O desenvolvimento desse produto que causa menos danos que o cigarro tradicional andou bem devagarzinho por anos. Nesta década, as grandes tabaqueiras deram o braço a torcer e compraram todas as pequenas e inovadoras empresas que o desenvolveram sozinhas.

Ou seja, para fazer seu produto vingar, Nutt terá que comprar uma briga contra a maior indústria de drogas do mundo – a do goró. Só em cerveja, os fabricantes de álcool faturam mais de 1 trilhão dólares por ano. Eles não usam fuzis, mas tem armas ainda mais poderosas, como lobistas eficazes em tudo que é governo do mundo. Algo que pode dificultar ou mesmo impedir incentivos ao desenvolvimento do “pseudo-talvez-mais-saudável-álcool”.

Não faltam exemplos da força dessa indústria sobre governos. Aqui no Brasil, por exemplo, a ideia de colocar advertências sobre os riscos do álcool para a saúde nos rótulos de bebida foi sumariamente cortada do projeto de lei que está em discussão no Senado para mudar nossa lei de drogas. Ninguém quer mexer com eles. Afinal, eles patrocinam o Campeonato Brasileiro de todas quartas e domingos, a seleção brasileira, a Champions League e a Copa do Mundo. Fora o carnaval, as festas juninas, os rodeios, a Fórmula Indy, campeonatos de surfe, o filme do Lula, do Corinthians, do Capitão Nascimento… E o congresso, é claro.

Eu vou torcer para que este Dom Quixote avance na sua pesquisa. Pode ser que descubra que sua droga é mais perigosa que o álcool. Sem problemas. Neste caso, ele aborta a missão e pronto. A mera possibilidade de ter uma alternativa ao álcool justifica qualquer tentativa.

Mesmo nesse estágio preliminar, a experiência de Nutt já instiga uma reflexão muito importante. Quantas vidas e recursos financeiros estamos perdendo com as drogas enquanto tentamos proibi-las, sem sucesso, em vez de investir na criação de novas drogas, mais seguras, feitas com o rigor e controle de qualidade com que se produz medicamentos?

O LSD foi feito assim, a partir de 1943, quando se descobriu seu efeito psicoativo. Testado em diversos animais, depois em humanos, levou quase dez anos para chegar ao mercado, de maneira controlada e ainda sob testes. Por isso mesmo, é até hoje é uma das drogas psicoativas mais seguras à disposição da humanidade. Na lista das 20 substâncias analisadas pelos dois estudos de Nutt, ele só não é menos seguro que os “cogumelos mágicos”.

As pessoas que cuidam das listas de drogas proibidas ou não devem fazer seu trabalho sob efeito de alguma droga muito louca. Afinal, razão é a última coisa que orienta suas decisões.

Enquanto eles continuam trabalhando desse jeito, façamos um brinde à ressaca.

***

Atualização: algo me diz que se o David Nutt fizer uma vaquinha no Kick Starter ele consegue a grana para seu álcool com antídoto!

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