Henrique Carneiro, da USP, no CID 2013

Resumo da palestra de Henrique Soares Carneiro, professor de história moderna. Doutor em História social, especialista em historia da alimentação e das drogas.

Carneiro começou lembrando que as drogas não são apenas as ilícitas, mas também o café, a cerveja, o tabaco, o chimarrão, os sedativos e antidepressivos, entre outras. Seguiu lembrando que a droga sempre ocupou ao mesmo tempo, na sociedade, um lugar desgraçado e sagrado, sinônimo de “cura, magia e milagre”.

O professor também observou que o Brasil é um “global player” do capitalismo de drogas, como dono da maior empresa de cerveja do mundo e maiores exportadores globais de tabaco. E que a sociedade contemporânea recorre a substâncias ativas para tudo. “Drogas para trabalhar, para dormir, para fazer sexo”.

O que faz sentido, considerando-se que elas nos acompanham desde a pré-história. “A importância das drogas na cultura humana só é comparável à dos alimentos. E muitas drogas são alimentos-droga, como a cerveja, o vinho e o açúcar.”

Carneiro lembrou que as drogas foram produtos-chave para a expansão do capitalismo entre os séculos 16 e 19, quando a farmácia moderna foi inaugurada e deu ainda mais importância a elas. Também citou o fato de Henry Ford ter ajudado o movimento pela temperança para diminuir a indisciplina nas fábricas. E isso apesar de o cristianismo não vetar o álcool – ao contrário, o primeiro milagre de Jesus é transformar água em vinho, segundo a Bíblia.

Mais tarde é que os cristãos fundariam uma luta pela abstinência que culminaria com a lei seca, nos EUA, e logo na transformação de consumidores de álcool em párias, de criminosos em milionários e da policia em vítima fácil da corrupção.

Com o fim da lei seca, começaria outra guerra, agora contra grupos étnicos minoritários. A maconha era coisa de mexicanos, a cocaína de negros, e o ópio, de chineses. A guerra que surgiu como forma de controlar esses grupos “é talvez a mais duradoura, mais cara e talvez a que tem o maior numero de presos da era contemporânea”.

Carneiro comenta que isso parece estar mudando aos poucos, a julgar pelos avanços dos últimos tempos, com a aprovação das marchas da maconha, com a defesa da descriminalização por ex-presidentes latino-americanos e com o processo de legalização do uso recreativo da maconha nos EUA.

Mas o historiador mostrou preocupação com o conservadorismo expresso, por exemplo, no projeto de lei que tramita na câmara para aumentar as penas para tráfico e legitimar a internação compulsória comunidades terapêuticas religiosas sustentadas por parlamentares, como Marcos Feliciano e o próprio relator do projeto, Givaldo Carimbão.

E manifestou-se contra a internação compulsória. “Será que seria legítimo internar os obesos para que não comam demais?”

Terminou citando o escritor e filósofo iluminista Voltaire: “Todos os excessos são condenáveis, especialmente os da abstinência. Quando ela se torna compulsória, os fundamentos da democracia são pervertidos”.

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