Aumento de potência na maconha de SP é questionável

Fiz a análise abaixo para a matéria da Folha de S.Paulo que foi chamada na capa de 11/11 desse jeito aí de cima. Um teste do Instituto de Criminalística achou “de tudo” na maconha de São Paulo, até caule de maconha (!). E o jornal constata que a droga está mais forte comparando dois estudos que não se preocuparam com a preservação da maconha que testaram nem apresentam desvio padrão – desconfio que o Datafolha não aprovaria a metodologia.

Duas coisas que não entraram no meu texto, mas, agora que vejo o tom de alarme, acho fundamental dizer:

– Altas concentrações de THC na maconha não significam, necessariamente, taxas igualmente altas no sangue. Como o efeito da maconha é sentido em segundos, o usuário costuma parar de fumar quando atinge o ponto desejado de “loucura”. Se a maconha é forte, ele traga menos vezes. A propósito: na Holanda, que tem a maconha mais forte do mundo, ninguém faz cigarros com a droga pura, mas sempre diluída em tabaco.

– A manchete diz que a maconha está “mais danosa” sem ter nenhum parâmetro de comparação em relação às concentrações de CBD e THC. Como era antes para ela ser “mais danosa”? Mistério.

12/11/2012 – 06h00

Análise: Desafios para ‘decifrar’ a droga começam antes do laboratório

TARSO ARAUJO

ESPECIAL PARA A FOLHA

Em 2002, o czar antidrogas norte-americano, John Walters, disse ao “Washington Post” que “a maconha de hoje é diferente daquela de uma geração atrás, com potência 10 a 20 vezes mais forte”. Desde então, esse argumento alarmista tem sido usado com frequência nos debates.

Ora, nenhum traficante quer vender maconha fraca. Logo, é previsível que o plantio se profissionalize. Assim como buscam tulipas de novas cores e raças de cão mais fortes, quem cultiva Cannabis quer mais THC, o principal psicoativo da planta. Hoje, para fazer isso, há luzes e métodos modernos, sementes selecionadas em décadas de cruzamentos. Tudo na internet.

Mas é pequena a chance de camponeses do Paraguai usarem essa tecnologia na produção massiva de maconha. O que fazem é o tal “prensado”, e a prova de que ele não está tão potente assim é visível a olho nu: ele tem sementes. Maconha com muito THC raramente tem sementes, porque, para fabricá-las, a planta usa a energia que precisa para fazer a molécula psicoativa.

No Brasil, só se faz maconha de “altos teores” em pequenas plantações caseiras. Esse cultivo “indoor” até tem crescido no país, por causa de usuários que não querem bancar o tráfico, mas sua produção é irrelevante.

Logo, é preciso cautela na comparação dos resultados dos testes de 2006/2007 e 2012. Por mais corretas que sejam as análises químicas, a dosagem de THC tem desafios que começam bem antes do laboratório.

Um fator crucial para medições confiáveis é ter uma amostragem representativa. Para medir a intenção de voto em São Paulo com algum valor estatístico, não basta entrevistar uns 50 cidadãos em Higienópolis.

No caso da maconha: o THC se decompõe rapidamente exposto à luz e ao ar. Se a pesquisa de 2006/2007 usou uma droga colhida há meses, apreendida em “trouxinhas” ou “baseados”, sua baixa potência pode ser mera consequência da má conservação. Se a de 2012 usou amostras novas, lacradas, o THC estava bem preservado.

Na Europa, onde se quantifica THC desde a década de 1990, os testes usam milhares de amostras, colhidas regularmente ao longo do ano, de várias fontes, para garantir representatividade.

É preciso ter esse cuidado aqui, antes de disparar o alarme. E fazer testes todo ano, de modo padronizado. Não nos faltam bons peritos, apenas verba e vontade política.

TARSO ARAUJO é autor do Almanaque das Drogas e editor da revista “Galileu”

A matéria original:

12/11/2012 – 05h30

Maconha vendida em São Paulo está mais potente, indica estudo

MORRIS KACHANI
DE SÃO PAULO

A maconha vendida em São Paulo está mais potente. Uma análise do Instituto de Criminalística em 35 amostras apreendidas entre julho e agosto na capital apontou uma média de 5,7% no nível de THC, a principal substância psicoativa da droga.

O estudo foi feito a pedido da Folha. Análise semelhante realizada entre 2006 e 2007 mostrou uma média de 2,5%.

“O resultado pode indicar uma certa tendência no aumento do princípio ativo da maconha vendida nas ruas, como se tem observado em alguns países desenvolvidos”, diz Mauricio Yonamine, professor de toxicologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.

O teor de THC aferido é maior do que a média na maconha apreendida no mundo: de 0,5 a 5%, de acordo com relatório da ONU.

Na Holanda e nos Estados Unidos, onde a tecnologia do plantio da droga é mais avançada, essa escalada atinge níveis médios de 15% e 10%, respectivamente.

A análise do IC mostrou também um baixo teor de canabidiol –0,6%, em média. A substância presente na planta Cannabis modula o efeito de THC, diminuindo a sensação de ansiedade.

“Para reduzir a chance de delírio e alucinação, a proporção deveria ser de um para quatro”, explica Elisaldo Carlini, da Unifesp.

Quanto mais potente a maconha, mais forte e prolongado é o seu efeito. “Se pensarmos no uso por adolescentes, os riscos seriam em princípio maiores [de alterações cognitivas, por exemplo]”, afirma o médico psiquiatra Dartiu Xavier, da Unifesp.

De acordo com levantamentos feitos pela Senad (Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas) em 2010, 13,2% dos estudantes brasileiros entre 17 e 18 anos e 26,1% dos universitários já tinham fumado maconha pelo menos uma vez na vida.

RESSALVAS

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam ressalvas com relação aos estudos, no que diz respeito à representatividade da amostragem e o tempo de armazenamento das apreensões. Mas a escassez de estudos mais aprofundados sobre o tema torna as medições relevantes.

A análise feita agora e a anterior adotaram a mesma metodologia e protocolo de medição. O espaço amostral, porém, foi reduzido. Em 2006 e 2007, foram analisadas amostras de 55 apreensões, contra as 35 da investigação atual.

Em ambos os estudos, a escolha das amostras foi aleatória e sem preocupação com o estado de conservação da droga. Foram analisados de cigarros prontos a tijolos de 500 gramas os mais, com apreensões feitas tanto no atacado como no varejo.

Em função da decomposição natural, quanto mais antiga for a apreensão, menor o nível de THC. José Luiz da Costa, perito do Instituto de Criminalística e presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia, explica por que a interpretação de resultados com análise de maconha é mais complexa que a de outras drogas: “Ela é vegetal. Se eu plantar a mesma semente no pé do morro ou no alto da montanha, o resultado já vai ser diferente”, explica.

“Mas a verdade é que a maconha é uma droga tão barata que não justifica você encontrá-la adulterada”, acrescenta Costa.

Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Aumento de potência na maconha de SP é questionável

  1. Henrique Carneiro disse:

    O autor diz que na Holanda “ninguém faz cigarros com a droga pura, mas sempre diluída em tabaco”. Isso é um absurdo! Só os tabagistas fazem essa mistura…
    O argumento de que com maconha mais forte se fuma menos é correto e até ajuda na redução dos danos da inalação de fumaça…

    • tarsoaraujo disse:

      Professor Carneiro, pois é, muito ruim para a saúde misturar tabaco à maconha, mas infelizmente isso é um costume em toda a Europa, como reconhece o próprio Monitor Europeu de Drogas (EMCDDA) neste documento: “In Europe, where cannabis and tobacco are commonly mixed together for smoking (…)”.
      Na Holanda, a tendência é tão forte que quando quiseram proibir o consumo de tabaco em coffee shops teve proprietário dizendo que ia à falência se a lei pegasse. Você viu essa (já velha) notícia?
      abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s