Não diga, General!

“O combate às Farc trouxe como efeito colateral o transbordamento das atividades de narcoguerrilheiros para países vizinhos, como Peru e Bolívia. Isso, associado ao novo poder dos cartéis do tráfico no México, é a maior ameaça à estabilidade na América do Sul hoje.”

A declaração foi dada pelo general americano Douglas Fraser, comandante das operações militares dos EUA no Caribe e América do Sul. É mesmo, general?! Não diga!

Desde 1971, quando o Richard Nixon declarou as drogas o maior inimigo público dos EUA, os americanos travam uma guerra que só serviu para alimentar a cobiça e a violência em países que até então mal sabiam o que era tráfico de drogas. Há décadas a guerra permite que criminosos enriqueçam com o comércio de drogas que a repressão linha dura faz valer cada vez mais.

Como todo mundo sabe, e só os americanos parecem preferir ignorar, fazer guerra contra o tráfico só faz o preço da maconha e do pó subirem, atraindo ainda mais gente miserável ou ambiciosa para o comércio dessas substâncias que aliviam e temperam, principalmente, os próprios americanos.

É óbvio que isso nunca adiantou. A guerra ao tráfico nunca diminuiu a oferta, só fez o camponês procurar terra nova para plantar droga, o contrabandista buscar outra rota para trabalhar. Jogue veneno na coca da Colômbia, e o traficante planta na Bolívia. Exploda o cartel de Cali, que o de Juarez agradece.

Também é claro que é o negócio é arriscado, e por isso os traficantes precisam comprar fuzis que há três décadas só o exército tinha. Mas é claro que o negócio vale muita grana, e os meliantes vão matar e corromper quem for preciso para garantir a sua fatia nesse bolo. Só que suas balas perdidas ou não e seu dinheiro sujo que corrompe tudo ao redor não fere americanos, principalmente. Fere, sim, o cidadão latino-americano que, a princípio, não tinha nada a ver com isso e foi forçado a entrar nessa roda por causa de um populismo nefasto de gente que quer ganhar votos.

Todo mundo sabe que os americanos adoram uma guerra para esquentar sua economia e reafirmar seu poder pela força. Essa guerra tem ainda mais conveniências. Durante décadas, ela foi desculpa para os americanos realizarem todo tipo de intervenção política e militar internacional em países latino-americanos. O plano Colômbia é só um exemplo recente de como se pode constranger um país a aceitar e colaborar com sua guerra às drogas, sob a ameaça de sanções políticas e econômicas.

Ainda em 1971, os EUA bombardearam milhares de quilômetros quadrados no México com substâncias químicas tóxicas para o ambiente e para quem mora no campo. No mesmo ano, obrigaram a Turquia a abrir mão de uma receita importante proveniente da venda de ópio para a indústria farmacêutica para evitar o tráfico de heroína. Rá! As plantações de papoula foram para ali do lado, no mesmo México. Nos anos 90, seguiram para o Afeganistão, onde a Al Qaeda usou a plantinha para financiar o 11 de setembro.  Pois é, para os EUA, é tiro no pé. Machuca, mas não mata. Pra gente, é só roubada, violência, corrupção.

Como disse ali em cima, todo mundo sabe disso tudo, inclusive e especialmente os americanos. E há muito tempo. Agora o general vem dizer isso como se fosse novidade. E como se os EUA fossem os bons samaritanos a fim de ajudar os pobrecitos aqui a lutar contra os maus elementos.

General, recolha suas armas. Sua guerra só nos atrapalhou. Cuide dos seus viciados, das suas centenas de milhares de pessoas presas por causa de um baseado. Deixe as drogas com os médicos, com os psicólogos e com os usuários, e vá brincar com seus barquinhos e fuzis no quintal da sua própria casa. O “resto” da América agradece.

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Uma resposta para Não diga, General!

  1. Aplausos! Somente o que tenho a comentar.

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