Derrubando mitos – Maioria dos usuários de crack não morre devido à droga, e sim por causa da violência

Não é nenhuma novidade, mas não custa lembrar: a violência do tráfico mata (muito) mais do que o uso da droga, mesmo no caso do crack.

O estudo citado nessa reportagem publicada em dezembro de 2012 pelo Extra, que anda circulando hoje no Facebook, foi feito há alguns anos pelo psiquiatra da Unifesp Ronaldo Laranjeira. O dado é citado no Almanaque das Drogas, mas muito pouco usado na imprensa.

Talvez porque ofereça um argumento e tanto a favor da legalização, exposto na reportagem pelo próprio autor da pesquisa, famoso pela sua defesa aguerrida da proibição das drogas. Ou pelo menos das que já são proibidas.

“As pessoas que consomem o crack têm morrido mais das mortes violentas do que de qualquer doença grave. A proporção é muito maior do que na população geral. A vida fica mais curta porque, com a droga, o usuário tem que se relacionar com um mercado ilegal”, diz Laranjeira.

Ou seja, mesmo quando falamos de uma droga de alto potencial de causar dependência e danos para a saúde, a violência associada ao tráfico (que só existe por causa da lei) mata mais que a substância, em si.

Reparem que isso é um dado, não uma opinião.

A reportagem tem outras coisas curiosas: ela faz parte de uma série chamada “Os mitos do crack”, mas no primeiro parágrafo já dá aquela forcinha para se criar outros mitos. Ela diz que “56% dos viciados morrem assassinados”.

Na verdade, o estudo constatou que o homicídio era a causa de 56% do total de mortes observadas na amostra de dependentes acompanhados. O estudo acompanhou 131 pessoas e a reportagem sugere que morreram 73 delas assassinadas. Na verdade, foram “apenas” 13. Uma “pequena” diferença de 60 óbitos entre o que diz a reportagem e o que diz o estudo.

Na última frase do primeiro parágrafo, a reportagem ainda reforça outro mito: o de que usuário e dependente é tudo a mesma coisa, quando diz que “a overdose da chamada “droga da morte” mata menos de 9% dos usuários.”

Usuário é uma coisa, dependente é outra. Felizmente, a maioria dos usuários de drogas nunca chega a se tornar dependente. E isso também vale para o crack, que vicia de 20% a 40% daqueles que o experimentam, dependendo do estudo que se consulta. No da nicotina, por exemplo, cerca de 40% das pessoas que provam e a usam eventualmente acabam dependentes. (Leia mais sobre isso no Almanaque).

Outro mito que a reportagem reforça é justamente esse de que o crack é a “droga da morte”. Jornalistas (como eu) adoram esses apelidos. Infelizmente (para quem lê) mesmo quando eles não são verdadeiros. A reportagem quer mostrar justamente que é a violência do tráfico o que mais mata, e no entanto os autores reforçam o falso lugar comum.

Mais certeiro seria se referir à “lei da morte”, que torna esse comércio tão valioso na mão de um tipo de gente capaz de matar doentes para resguardar seu mercado, de matar um dependente para fazer os outros pagarem o que devem.

Quem quiser ler a tal matéria, pode clicar aqui. Se você preferir, pode dar uma olhada direto nos dados do estudo. Eles estão disponíveis para download aqui, no site do Uniad, sigla de Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas. Ué, álcool & drogas? Então álcool não é droga??? Ai, ai…

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Ras Geraldinho condenado – a lei é ruim, o judiciário pior. O que você acha?

Geraldinho na Marcha da Maconha, em São Paulo - Crédito: GrowroomOntem saiu a sentença de Ras Geraldinho, que estava sendo acusado de tráfico em Americana, interior de São Paulo. Ontem, o juiz o condenou a 14 anos e 2 meses de prisão, além de confiscar o imóvel em que vivia. Tráfico e formação de quadrilha, com aumento de pena por envolver adolescente com “diminuída capacidade de entendimento”.

Um absurdo completo.

Geraldinho ficou famoso por fundar a Primeira Niubingui Etíope Copta de Sião do Brasil, uma igreja rastafari, religião que pratica o uso ritual da maconha. Era um caso inédito no Brasil de uso religioso da erva, algo previsto e permitido pela lei – o uso ritual da ayauhasca em rituais do Santo Daime, por exemplo, é considerado legítimo. Ele plantava Cannabis no terreno e diversas pessoas apareciam em sua casa para fumar com ele. Para a promotoria, ele não passava de um traficante.

Nossa lei de drogas é ruim, com certeza. Mas nossos juízes são piores ainda, ao interpretá-la sem o menor bom senso.

Suponhamos que Ras Geraldinho realmente não tinha uma igreja. E que sua “religião” fosse apenas uma desculpa para fumar maconha mesmo. Suponhamos que algumas das pessoas que iam a seu “templo” de fato ganhassem alguma “presença” – uma pequana quantidade da maconha que ele plantava no jardim. E suponhamos que algum adolescente usuário de maconha tenha entrado lá para fumar com ele.

Neste caso, quando se leva a lei ao pé da letra, ele estava traficando, porque lá diz que plantar droga proscrita sem autorização é tráfico. E formava quadrilha porque, em vez de fumar sozinho, reunia outras pessoas em torno da sua religião.

Agora, que sentido faz condenar uma pessoa a 14 anos em regime fechado uma pessoa que não cometeu nenhum tipo de crime violento? Que sentido faz chamar de quadrilha uma pessoa que, fora reunir amigos para fumar maconha, não tinha nenhum outro tipo de associação criminosa?

Não foi comprovada, nem levantada qualquer suspeita, nenhuma relação de Geraldinho com organizações criminosas de fato, com nenhuma facção ou coisa do tipo. É claro: Geraldinho plantava, justamente para não sustentar o tráfico.

Geraldinho era réu primário e não tinha armas. Na lei, isso é justificativa para reduzir a pena de um condenado por tráfico. Essa parte da lei o juiz preferiu não levar ao pé da letra.

E lá vamos nós pagar 14 de anos de cadeia para um cidadão pacato que não feriu nem roubou ninguém. É uma pena maior que a de homicídio, por exemplo. Lá vamos nós gastar mais de mil reais por mês, que é quanto custa, por baixo, um preso no Brasil, para nos protegermos dele. Vale a pena? Serve para alguma coisa? Alguma pessoa vai deixar de fumar maconha porque ele está preso? Duvido.

A história não acabou aqui, certamente. A igreja de Geraldinho teve bastante repercussão na imprensa, e provalvemente isso vai virar uma grande novela até chegar à segunda instância. Até lá, Geraldinho vai ser uma espécie de mártir para quem luta por uma lei de drogas mais justa e racional, que produza resultados positivos para a sociedade, em vez de factoides midiáticos e causas eleitoreiras.

Vamos torcer que o juiz de segunda instância tenha mais bom senso.

E enquanto isso, vamos assimilando o prejuízo de pagar prisão, polícia, promotoria pública e sistema judiciário para resolver “problemas” como esse. Certamente, em Americana há problemas mais importantes para a polícia e as autoridades cuidarem.

* * *

O que você acha do caso? Vote na enquete e dê sua opinião nos comentários.

* * *

Leia um depoimento do próprio Geraldinho sobre toda essa piada, aqui em seu blog. E saiba mais sobre a igreja de Ras Geraldinho neste post da semSemente ou neste da revista Trip. A Trip também cobriu a invasão da igreja pela polícia neste post de junho de 2011.

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Neste sábado tem marcha!

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Cariocas, correi! Amanhã tem a Marcha da Maconha no Rio de Janeiro. É hora de ir pra rua e se posicionar.

Os problemas de drogas que o Brasil tem deixam bem claro que nossa política não está funcionando. É preciso mudar, e não é só pelo bem de quem fuma, mas de todo e qualquer cidadão.

Você pode participar indo lá, divulgando a manifestação pela internet ou simplesmente se informando melhor sobre o assunto (lendo o Almanaque, por exemplo). Só não pode é ficar parado.

Amanhã também tem marcha em Belo Horizonte, Cuiabá e Teresina. Confira a data de todas as marchas que este ano acontecem em mais de 30 cidades brasileiras no site http://marchadamaconha.org.

 

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Ethan Nadelmann no Brasil

Ethan NadelmannEstá vendo esse carinha aqui ao lado? Você provavelmente não o conhece, mas ele é uma das pessoas mais importantes para a história recente das drogas no mundo. Ethan Nadelmann fundou e preside a Drug Policy Alliance. Ano passado, ele e sua ONG ajudaram a preparar e a divulgar a proposta dos eleitores do estado americano do Colorado de legalizar o uso recreativo da maconha. A campanha deu tão certo que mais pessoas votaram a favor de regular a maconha como se faz com o álcool do que a favor de Barack Obama. Nadelmann está ajudando a mudar a história global das políticas de drogas no lugar onde essa fracassada estratégia de proibi-las foi criada.

Bem, dito isso, fica mais fácil entender porque a palestra que ele vai dar hoje no Itaú Cultural, em São Paulo, é um evento imperdível. Estive com ele neste fim de semana em Brasília, no Congresso Internacional sobre Drogas, e pude ver como, além de ser um grande ativista, ele é um grande orador, também. Quem se interessa pelo assunto drogas, ou se preocupa com isso, não pode deixar de ouvir Nadelmann – principalmente quem defende a proibição dessas substâncias. Será uma oportunidade única de entender como pensa quem pensa diferente. Bem, e vale dizer que quem não se interessa pelo assunto nem se preocupa com ele deveria começar a fazê-lo, já, porque o bicho tá pegando.

O evento de hoje vai ter streaming ao vivo, para quem não puder comparecer assistir de casa. E tudo terá tradução simultânea. A conferência de hoje foi organizada pelos colegas da rede Pense Livre, que estão nos dando mais uma grande chance de amadurecer e aprofundar o debate sobre drogas no país. Se eu usasse chapéu, tiraria o meu para eles.

O que é? Palestra com Ethan Nadelmann

Quando? Hoje, segunda-feira (6/5), às 19h.

Onde? No auditório do Itaú Cultural, na av. Paulista, 149 - (11) 2168-1777

Quanto? Grátis, mas é preciso retirar senha no local para garantir seu ingresso.

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“Qual a fonte número 1 de financiamento do crime hoje? O tráfico de drogas.” Ethan Nadelmann no CID 2013

Alguns trechos da palestra de Ethan Nadelmann, presidente da Drug Policy Alliance, que acontece agora, no Congresso sobre Drogas, enquanto a marcha rola lá fora.

Temos uma experiência com a proibição no meu país. O que isso fez lá? Outros problemas de álcool caíram no começo e então o que aconteceu depois? A bebida se tornou mais comum entre jovens. E quem vendia o álcool? Empresas que pagam impostos? Não. Al Capone. A violência começou a aumentar. Tiroteios. As prisões encheram. A corrupção aumentou. O álcool se tornou mais perigos porque foi proibido.

Qual a fonte número 1 de financiamento do crime hoje? O tráfico de drogas. Eles ganham dinheiro com outros negócios? Mas onde eles ganham dinheiro para investir nessas outras atividades? Com a fonte mais fácil: o tráfico.

Quando políticos cheiram cocaína e cresceram fumando maconha, mas quando chegam ao poder ninguém quer falar sobre o assunto. Hipocrisia.

Vocês falam português, certo? Porque vocês fazem com as drogas o mesmo que os EUA fazem, e não como os portugueses fazem?

Eu amo meu país. Normalmente as pessoas amam seus países. E somos uma superpotência. E como tal sempre queremos que os outros façam as coisas do nosso modo, do jeito que fazemos. Especialmente quando estamos inseguros se o que estamos fazendo está certo. É o que fazemos com a política de drogas. “Esqueça a ciência. Apenas faça o que fazemos e pronto.”

Viajo pelo mundo e sempre peço desculpas pelo modo como nosso país fez aumentar o poder do narcotráfico e a corrupção em outros países, por ter aumentado as violações de direitos humanos. Mas agora estou me sentindo bem, porque nos tornamos líderes no processo de reforma das leis da maconha, com a legalização nos estados do Colorado e de Washington.

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Cesar Gaviria Trujillo falou sobre a “internação compulsória”

ImageO ex-presidente da Colômbia (1990-1994) fez um discurso inflamando, no qual basicamente atacou o projeto de lei que tramita na câmara propondo a internação compulsória como alicerce das políticas de drogas do país. Aqui tem um dos trechos de seu depoimento:

“De todas as coisas que se pode fazer, a pior é o tratamento obrigatório. Não há um só país do ocidente que esteja fazendo o que pretendem fazer no congresso brasileiro, porque se sabe que isso só se presta para os maiores abuso que se pode imaginar. E isso é o que está acontecendo nos países autoritários da Ásia. Em vez de estudar os problemas, ajudar as pessoas, aqui estão pensando em encarcerá-las.

É incrível que o país vá percorrer um caminho tão equivocado, contraproducente e daninho, que comprovadamente não funciona. Essa ideia do tratamento obrigatório é contra a individualidade do ser humano.

Será que isso de internação compulsória vai resolver o problema dos homicídios? Não, claro que não. Vai contra tudo que está acontecendo em todo o ocidente. Até nos EUA estão mudando de ideia. Enquanto o mundo inteiro esta caminhando adiante o Brasil vai dar um passo para trás. Isso que estão propondo é uma vergonha internacional.”

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